Cultura

As 10 mais da Economist em 2014, data-driven journalism e Messi, o jogador impossível by Paulo Henrique Lemos

A idéia de que jornais e revistas deveriam, por uma questão de sobrevivência, dar mais espaço à análise e interpretação dos fatos circula, com maior ou menor entusiasmo, há pelo menos 20 anos. Precede, portanto, a massificação do acesso a Internet, que aparentemente veio a fortalecer o argumento original: o de que seria inútil competir com a urgência das imagens da TV. O jornal de hoje, afinal, é sempre, na melhor das hipóteses, o jornal de ontem.

Pode-se concordar ou não. O que importa é que a fragmentação da atenção do público, outrora cativa, tornou a experimentação uma questão de vida ou morte para as empresas jornalísticas. Antes, os grandes (em tamanho, pelo menos) jornais e revistas como o New York Times e a Time podiam se dar ao luxo de ser tudo para todo mundo, oferecendo desde palavras cruzadas até a última cotação da arroba bovina, colhendo os frutos correspondentes ao seu alcance e influência. Hoje, veículos de todos os tipos e tamanhos procuram encontrar um equilíbrio entre suas propostas editoriais e a necessidade de servir ao perfil de leitor que lhes permitirá sobreviver. 

Bom, esta semana a Economist soltou uma lista das dez matérias mais lidas em seu site em 2014 – o critério não está descrito, mas presumo, é o de pageviews, visualizações de página, o mais simples. Pelo menos oito das dez mais lidas são o que se chama aqui de “set pieces”, ou seja, matérias frias, que poderiam ter sido publicadas em qualquer época do ano sem prejuízo de sua relevância ou interesse. Em comum, tratam da “big picture”, mesmo quando o assunto é, digamos, de interesse restrito, como a  legalização da prostituição e os novos modelos de exploração de petróleo, assuntos, respectivamente, da segunda e da terceira matérias mais lidas.

Matérias frias, sim, mas que podem, em maior ou menor medida, ter sido planejadas com antecedência, porque se há uma revista interessada em saber quem é e o que deseja seu leitor, é a Economist, que promove detalhadas pesquisas bimestrais, quase sempre acompanhadas de algum incentivo (pessoas respondem a incentivos, como se sabe). Geralmente um livro, calendário ou o acesso aos próprios resultados da pesquisa. Cruzados com os dados de comportamento do leitorado digital, de análise obrigatória para qualquer empresa séria, de mídia ou não, deve render insights valiosos. Não deixa de ser notável que, em uma época de declínio da mídia impressa, com tantos títulos tradicionais indo a pique, a revista ostente uma circulação semanal de 1.5 milhão de exemplares (o Brasil responde por 8 mil, insignificantes para um país com nossa população e economia, mesmo considerada a barreira da língua).

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Sobre a forma como a Economist vende (ou vendia) assinaturas, há uma irresistível análise do economista israelense Dan Ariely, autor de Predictably Irrational e outros livros sobre economia comportamental. Basicamente ele demonstra como a precificação das opções de assinatura é apresentada de modo a provocar uma decisão aparemente racional por parte do comprador. Leia aqui.

A revista, claro, respondeu.

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Modelos de negócio e disrupção (ai, ai) digital à parte, jornalismo, claro, é muito mais do que isso, ainda que muita gente confunda o uso de dados de comportamento com o chamado “data-driven journalism”, hoje tão em voga. Sobre este último, em que a consciência e o julgamento dos editores – esses tão falíveis seres humanos – é submetida a, ou substituída por, análises quantitativas que revelariam a “objetividade” dos fatos, recomendo este artigo de Leon Wieseltier, jornalista "old school" no melhor sentido, sobre as limitações e riscos da empreitada, que cutuca Nate Silver, o mestre dos magos entre os convertidos do jornalismo de dados. 

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Caso você ainda não esteja familiarizado com o “data-driven journalism”, ofereço este interessante exemplo, aplicado a um dos assuntos que mais se prestam à subjetividade, o futebol. Usando apenas dados, hermeticamente isolados da paixão boleira, Benjamim Morris, que escreve para o site de Nate Silver, demonstra que Lionel Messi não é apenas o melhor jogador do mundo, muito à frente de outros tidos como do mesmo nível, como Cristiano Ronaldo, mas que ele é simplesmente um "jogador impossível” – isso mesmo. Leia e tire suas próprias conclusões.

The Guardian ultrapassa o New York Times e é o segundo jornal mais lido do mundo em língua inglesa by Paulo Henrique Lemos

Para quem acompanha, era apenas questão de tempo. Com 42,6 milhões de visitantes únicos em setembro último, o The Guardian ultrapassou o The New York Times para se tornar o segundo site de jornal mais lido do mundo em língua inglesa (o primeiro ainda é o site do tablóide inglês Daily Mail, mais conhecido por moer celebridades em sua "sidebar of shame").

O sucesso do Guardian - que não está restrito à audiência - é um alento para quem se importa com o jornalismo.

Demonstra que um jornal pode defender pontos de vista claros sem deixar de ser plural, como fez na série de reportagens sobre a NSA e sua espionagem digital.

Que pode ser crítico e investigativo sem perder o senso de humor, como fez com o governo trabalhista de Gordon Brown (que apoiava) e faz agora com o governo conservador de David Cameron (a que se opõe).

E que pode ser interativo, oferecendo amplo espaço à participação dos leitores sem descambar para a baixaria, como faz diariamente nas seções "Comment is free... but facts are sacred" e "You tell us".

Em tempo: sabe como os jornais e revistas brasileiros têm horror a incluir links para os sites das pessoas e organizações que citam em suas matérias, por medo de perder pageviews? Pois saibam que o Guardian não só permite como encoraja seus repórteres e articulistas fazê-lo. Em outras palavras, sabe que estamos em 2014 e não escreve para o leitor de 1996.

Wall Street Journal, estratégia de conteúdo e presunção de inteligência by Paulo Henrique Lemos

Semana passada aconteceu aqui na cidade o PEN World Voices, festival que promove debates com escritores, editores e repórteres do mundo inteiro.

Como os ingressos são baratinhos (USD 10 a USD 20), pude ir a várias sessões. Ouvi de perto Salman Rushdie, Martin Amis, Colm Tóibín e Timothy Garton Ash. Também fui a uma leitura com a Eliane Brum, que saiu agora da Época para o El País.

Martin Amis (dir.)

Salman Rushdie

Em um desses debates cheguei com muita antecedência, e enquanto esperava acabei conhecendo o Christopher Farley, editor sênior digital do Wall Street Journal, ainda o maior jornal dos EUA em circulação, com 2.3 milhões de exemplares diários - 900 mil deles em formato digital.

Christopher Farley

(By the way, ele aprecia música brasileira. Esteve aí pra cobrir o Rock in Rio de 2001 como enviado da Time, e ficou deslumbradíssimo em conhecer a Marisa Monte e o Paulinho da Viola. Quem diria.)

Tudo isso pra dizer que fiz algumas perguntas a ele sobre a estratégia digital do WSJ. Perguntei, por exemplo, se havia muita pressão para gerar audiência (pageviews), e o que eles viam como métricas de sucesso.

Ele disse que obviamente existe a pressão, mas que o maior conflito que tem que administrar como editor é o conflito entre as expectativas dos assinantes (uma base qualificada, que sustenta a operação: o assinante médio tem renda anual de USD 191 mil, patrimônio médio de USD 2.1 milhões e idade média de 55 anos) e as expectativas do comercial, que exige volume de pageviews, sem maiores preocupações com qualificação.

Em outras palavras (agora minhas, não dele), o dilema do WSJ é o seguinte: como atender em alto nível quem sustenta o jornal hoje sem deixar de construir a base que sustentará o jornal amanhã?

Minha impressão é a de que depois de anos batendo cabeça, o WSJ hoje trilha um caminho que pode ser descrito como "experimentação qualitativa", ou seja: explorar assuntos variados, que tenham apelo a diferentes perfis de público, mas SEMPRE com qualidade.

Por qualidade, entenda-se a presunção de inteligência do lado do leitor. A premissa é a de que, independentemente do formato (texto, áudio, vídeo, infográfico, o que for), e do tamanho (curto ou longo) o leitor vê valor em conteúdo de alto nível, até porque, em alguma medida, precisa dele para tomar decisões em sua vida pessoal e profissional. E, acima de tudo, não tem preguiça de pensar, espera ser desafiado.

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Os blogs Digits, que cobre tecnologia, e Speakeasy, que acompanha cultura e entretenimento, são as peças mais visíveis dessa estratégia. Tudo é assunto, seja a nova iniciativa de cybersegurança da IBM ou a Dança dos Famosos (é sério).

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Farley, nascido na Jamaica, é também autor de uma biografia do Bob Marley.

Como viver sem ironia by Paulo Henrique Lemos

O que é um hipster? Não vivo embaixo de uma pedra, mas devo ter sido uma das últimas pessoas que conheço a ter contato com a palavra, e não seria prudente arriscar uma definição. Especialmente depois de ver e ouvir tanta gente diferente entre si rotulando os outros - e pelos outros sendo rotulada - assim. E, claro, do sem-número de memes circulando pelas mídias sociais que discretamente freqüento.

O que posso dizer é que uma das poucas coisas interessantes e razoavelmente sérias que li sobre o termo foi este artigo, publicado na seção de blogs do New York Times e intitulado "Como viver sem ironia". A autora, uma professora de Princeton chamada Christy Wampole, parte de uma breve descrição das características do hipster para situá-lo como parte de um fenômeno mais abrangente:

"O hipster ronda todas as ruas da cidade e campi universitários. Manifestando uma nostalgia por tempos que ele jamais viveu, este arlequim urbano contemporâneo se apropria de modismos antigos (o bigode, os shorts curtos), mecanismos (bicicletas de marcha fixa, vitrolas portáteis) e hobbies (fazer cerveja em casa, tocar trombone). (...) Antes de fazer qualquer escolha ele passa por vários estágios de auto-escrutínio. O hipster é um acadêmico das normas sociais, um estudante do cool. Estuda incessantemente, atento ao que ainda está por ser encontrado pelo mainstream. Ele é uma citação ambulante, cujas roupas aludem a muito mais do que elas mesmas. Ele tenta resolver a velha questão da individualidade não com conceitos, mas com bens materiais."

A seguir, Wampole argumenta que o hipster é a mais extrema manifestação do que ela chama de ironic living, ou "viver irônico":

"Para muitos americanos nascidos nos anos 80 e 90, particularmente os brancos de classe média, a ironia é a forma predominante de comportamento na vida cotidiana. Basta dar uma olhada em espaços públicos, virtuais ou concretos, para notar o quão disseminado este fenômeno se tornou. (...) E como isso aconteceu? Em parte devido à conclusão de que esta geração tem pouco a oferecer em termos de cultura, de que tudo já foi feito, ou de que abraçar a sério qualquer crença irá resultar invevitavelmente em ridículo (na melhor das hipóteses) ou em humilhação (na pior). Esse jeito de viver, sempre na defensiva, acaba funcionando como uma rendição preventiva, e se dá não sob a forma de ação, mas de reação."

Nem todas as pessoas que conheço são americanas brancas de classe média, mas a relutância de muita gente na faixa etária descrita pela professora - a minha - em sequer arriscar falar honestamente sobre qualquer assunto é facilmente observável, pelo menos em ocasiões sociais. Observável e incômoda, porque limita drasticamente as possibilidades de convivência, troca de idéias e aprendizado mútuo.

Pois eu penso que a ironia cultivada, fruto de estudo, experiência e reflexão é um traço desejável em qualquer pessoa. Já a ironia superficial, defensiva e pretensiosa, essa tem para muitos homens e mulheres um apelo irresistível: não por acaso, pagar de pessoa vivida, confiante e auto-suficiente é o esporte favorito de tantos adolescentes.

(Crédito da imagem: Hipster Memes.)

O duque em seu domínio by Paulo Henrique Lemos

Sugestão de leitura para este fim de semana: "The Duke in His Domain", perfil de Marlon Brando por Truman Capote, que saiu na New Yorker no inverno de 1957.
"Bud [apelido de Brando na infância] havia herdado as inclinações teatrais de sua mãe, mas aos dezessete anos manifestou o desejo de estudar para ser pastor no ministério local. (Naquele tempo, como agora, Brando procurava alguma coisa em que pudesse acreditar.) (...) Convencido a abandonar suas ambições clericais, expulso de sua escola, rejeitado pelo serviço militar em 1942 por causa de um problema no joelho, Brando arrumou as malas e veio para Nova York. Sai de cena Bud, o adolescente roliço, louríssimo e infeliz, e emerge o já muito talentoso homem Marlon."
Leia a íntegra aqui.