Wall Street Journal, estratégia de conteúdo e presunção de inteligência / by Paulo Henrique Lemos

Semana passada aconteceu aqui na cidade o PEN World Voices, festival que promove debates com escritores, editores e repórteres do mundo inteiro.

Como os ingressos são baratinhos (USD 10 a USD 20), pude ir a várias sessões. Ouvi de perto Salman Rushdie, Martin Amis, Colm Tóibín e Timothy Garton Ash. Também fui a uma leitura com a Eliane Brum, que saiu agora da Época para o El País.

Martin Amis (dir.)

Salman Rushdie

Em um desses debates cheguei com muita antecedência, e enquanto esperava acabei conhecendo o Christopher Farley, editor sênior digital do Wall Street Journal, ainda o maior jornal dos EUA em circulação, com 2.3 milhões de exemplares diários - 900 mil deles em formato digital.

Christopher Farley

(By the way, ele aprecia música brasileira. Esteve aí pra cobrir o Rock in Rio de 2001 como enviado da Time, e ficou deslumbradíssimo em conhecer a Marisa Monte e o Paulinho da Viola. Quem diria.)

Tudo isso pra dizer que fiz algumas perguntas a ele sobre a estratégia digital do WSJ. Perguntei, por exemplo, se havia muita pressão para gerar audiência (pageviews), e o que eles viam como métricas de sucesso.

Ele disse que obviamente existe a pressão, mas que o maior conflito que tem que administrar como editor é o conflito entre as expectativas dos assinantes (uma base qualificada, que sustenta a operação: o assinante médio tem renda anual de USD 191 mil, patrimônio médio de USD 2.1 milhões e idade média de 55 anos) e as expectativas do comercial, que exige volume de pageviews, sem maiores preocupações com qualificação.

Em outras palavras (agora minhas, não dele), o dilema do WSJ é o seguinte: como atender em alto nível quem sustenta o jornal hoje sem deixar de construir a base que sustentará o jornal amanhã?

Minha impressão é a de que depois de anos batendo cabeça, o WSJ hoje trilha um caminho que pode ser descrito como "experimentação qualitativa", ou seja: explorar assuntos variados, que tenham apelo a diferentes perfis de público, mas SEMPRE com qualidade.

Por qualidade, entenda-se a presunção de inteligência do lado do leitor. A premissa é a de que, independentemente do formato (texto, áudio, vídeo, infográfico, o que for), e do tamanho (curto ou longo) o leitor vê valor em conteúdo de alto nível, até porque, em alguma medida, precisa dele para tomar decisões em sua vida pessoal e profissional. E, acima de tudo, não tem preguiça de pensar, espera ser desafiado.

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Os blogs Digits, que cobre tecnologia, e Speakeasy, que acompanha cultura e entretenimento, são as peças mais visíveis dessa estratégia. Tudo é assunto, seja a nova iniciativa de cybersegurança da IBM ou a Dança dos Famosos (é sério).

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Farley, nascido na Jamaica, é também autor de uma biografia do Bob Marley.