Como viver sem ironia / by Paulo Henrique Lemos

O que é um hipster? Não vivo embaixo de uma pedra, mas devo ter sido uma das últimas pessoas que conheço a ter contato com a palavra, e não seria prudente arriscar uma definição. Especialmente depois de ver e ouvir tanta gente diferente entre si rotulando os outros - e pelos outros sendo rotulada - assim. E, claro, do sem-número de memes circulando pelas mídias sociais que discretamente freqüento.

O que posso dizer é que uma das poucas coisas interessantes e razoavelmente sérias que li sobre o termo foi este artigo, publicado na seção de blogs do New York Times e intitulado "Como viver sem ironia". A autora, uma professora de Princeton chamada Christy Wampole, parte de uma breve descrição das características do hipster para situá-lo como parte de um fenômeno mais abrangente:

"O hipster ronda todas as ruas da cidade e campi universitários. Manifestando uma nostalgia por tempos que ele jamais viveu, este arlequim urbano contemporâneo se apropria de modismos antigos (o bigode, os shorts curtos), mecanismos (bicicletas de marcha fixa, vitrolas portáteis) e hobbies (fazer cerveja em casa, tocar trombone). (...) Antes de fazer qualquer escolha ele passa por vários estágios de auto-escrutínio. O hipster é um acadêmico das normas sociais, um estudante do cool. Estuda incessantemente, atento ao que ainda está por ser encontrado pelo mainstream. Ele é uma citação ambulante, cujas roupas aludem a muito mais do que elas mesmas. Ele tenta resolver a velha questão da individualidade não com conceitos, mas com bens materiais."

A seguir, Wampole argumenta que o hipster é a mais extrema manifestação do que ela chama de ironic living, ou "viver irônico":

"Para muitos americanos nascidos nos anos 80 e 90, particularmente os brancos de classe média, a ironia é a forma predominante de comportamento na vida cotidiana. Basta dar uma olhada em espaços públicos, virtuais ou concretos, para notar o quão disseminado este fenômeno se tornou. (...) E como isso aconteceu? Em parte devido à conclusão de que esta geração tem pouco a oferecer em termos de cultura, de que tudo já foi feito, ou de que abraçar a sério qualquer crença irá resultar invevitavelmente em ridículo (na melhor das hipóteses) ou em humilhação (na pior). Esse jeito de viver, sempre na defensiva, acaba funcionando como uma rendição preventiva, e se dá não sob a forma de ação, mas de reação."

Nem todas as pessoas que conheço são americanas brancas de classe média, mas a relutância de muita gente na faixa etária descrita pela professora - a minha - em sequer arriscar falar honestamente sobre qualquer assunto é facilmente observável, pelo menos em ocasiões sociais. Observável e incômoda, porque limita drasticamente as possibilidades de convivência, troca de idéias e aprendizado mútuo.

Pois eu penso que a ironia cultivada, fruto de estudo, experiência e reflexão é um traço desejável em qualquer pessoa. Já a ironia superficial, defensiva e pretensiosa, essa tem para muitos homens e mulheres um apelo irresistível: não por acaso, pagar de pessoa vivida, confiante e auto-suficiente é o esporte favorito de tantos adolescentes.

(Crédito da imagem: Hipster Memes.)