Contemporâneo dele / by Paulo Henrique Lemos

Folheando o Estadão na manhã do dia 31 de dezembro último, me lembrei de Daniel Piza. Ele havia morrido há exatamente um ano, aos 41, após sofrer um AVC. Fui seu leitor regular e tínhamos algumas admirações em comum, como Robert Hughes, Evelyn Waugh e Rubem Braga. Piza não tinha no humor seu ponto forte, e podia ser repetitivo, especialmente quando escrevia sobre política ou futebol. Tinha a mania de fechar seus textos com aforismos e epigramas que às vezes mais confundiam do que sintetizavam seus argumentos. Mas foi um crítico honesto, estudioso e prolífico, que defendeu como nenhum outro de sua geração (aquela imediatamente anterior à minha) a importância da cultura na formação tanto do indivíduo quanto da sociedade, e teve momentos de brilho refletindo sobre seu ofício.

Só por isso já mereceria ser lembrado, mas Piza foi também um competente biógrafo de Machado de Assis e repórter dotado de grande poder de observação, como demonstrou em sua visita à China durante os Jogos Olímpicos de 2008. Sentindo falta de vozes brasileiras como a dele, retornei a Contemporâneo de mim, uma de suas coletâneas de artigos e ensaios, publicada em 2007, e pesquei alguns trechos que, a meu ver, envelheceram particularmente bem.

De "Utilidades da cultura" (1999): "É bastante comum ouvir, até de pessoas cultas, que a cultura tem papel decorativo em relação à inteligência, aptidão ou bem-estar de uma pessoa. Como se fosse a cereja no bolo ou o verniz que os novos-ricos passam para freqüentar novos ambientes. (…) Se nos resta o que Rimbaud resumiu, 'preservar o rigor combativo e aclamar a beleza', dado o número de incertezas, frustrações e azares que qualquer pessoa sofre, o que é melhor do que a cultura para nos ensinar isso? Pois cultura é útil num sentido mais indireto, que é o de intensificar a percepção, aguçar a inteligência, ampliar sua capacidade de associar e antecipar, fazendo de você melhor ser humano, melhor profissional, não mais 'feliz' ou 'bem-sucedido' – e, sim, ao mesmo tempo menos orgulhoso e mais seguro, menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos passivo e mais alerta."

Em "O bom leitor" (2004), conclui: "Afora a carência de dinheiro, política e orientação, há todo o clima cultural que diz que ler é perder tempo, de nada adianta, não serve para ganhar o pão ou governar um país. Do outro lado, que muitas vezes termina sendo o mesmo lado, há a propaganda de que ler dá status, é 'im-por-tan-te' ou traz a felicidade dos comerciais de refrigerante. O bom leitor não cai nessa. Sabe que a leitura não se mede por vantagens práticas imediatas ou por quesitos falsamente objetivos, como os que andam sendo utilizados nos júris de alguns prêmios literários nacionais. Sabe que a leitura pode adensar sua inteligência e o ajudar a enxergar para além das polarizações sentimentais que marcam tanto o debate subdesenvolvido. E que isso, acima de todas as coisas, lhe dá instrumentos para ao menos resistir à palermização vigente."

De "Lingüetas" (2005): "O ponto-e-vírgula quase desapareceu das publicações brasileiras; por ser um elemento de elegância e reflexão, está fora de moda. A perda é do pensamento."

De "Literárias" (2002): "Acho que o problema [do escritor brasileiro] é o do brasileiro em geral: sua reduzida capacidade de aceitar a realidade. Se você tomar como exemplo a cidade de São Paulo, vê que há uma oferta cultural grande, mas o debate de idéias é escasso (…) O brasileiro repudia a análise, a cobrança crítica."

Em "Ensaio de formação" (2005), Piza nota que "No Brasil, acham que ser liberal é ser contra a existência de estatais, mas não era nada disso: o conceito embutido na expressão [educação liberal] é o de que você deve procurar individualmente sua formação intelectual, como cidadão livre, e não esperar que professores ou padres lhe digam o que pensar. Ao mesmo tempo, educar-se é obrigatoriamente entrar em contato com a tradição, com o que de melhor já foi dito ao longo dos tempos, e não tratar o passado como algo obsoleto; exige, portanto, algum método, muito esforço e uma mescla de humildade e petulância. Você só vai ter idéias independentes se antes conhecer as boas idéias alheias."

De "O Ler e o tempo" (2006): "Não procure tempo para ler, amigo; leia para que o tempo o encontre."

(Crédito da ilustração: Fusca.)